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segunda-feira, 21 de abril de 2014

"Perdida para sempre; não era capaz de entender, e tentava suportar o sofrimento desta contradição: por um lado, uma existência, uma ternura, em mim sobrevivendo tais como as conhecera, isto é, criadas para mim, um amor em que tudo de tal maneira encontrava em mim o seu complemento, o seu objectivo, a sua constante direcção, que o génio de grandes homens, todos os génios que houvessem existido desde o começo do mundo não valeriam para a minha avó um só dos meus defeitos; e, por outro lado, mal tinha revivido como presente essa felicidade, senti-la atravessada pela certeza, arremessada como uma dor física repetitiva, de uma nada que apagara a minha imagem dessa ternura, que destruíra essa existência, que abolira retrospectivamente a nossa mútua predestinação, que fizera da minha avó, no momento em que a reencontrava como num espelho, uma simples estranha que um acaso fizera passar alguns anos ao meu lado, como poderia ter acontecido com qualquer outro, mas para quem, antes e depois, eu não era nada, eu não seria nada."
- Em Busca do Tempo Perdido, vol. 4 - Sodoma e Gomorra
Marcel Proust
"Porque às perturbações da memória estão ligadas as intermitências do coração. É sem dúvida a existência do nosso corpo, semelhante para nós a um vaso onde estivesse encerrada a nossa espiritualidade, que nos induz a supor que todos os nossos bens interiores, as nossas alegrias passadas, todas as nossas dores estão permanentemente da nossa posse. Talvez seja também inexacto acreditar que elas se escapam ou que regressam. Em todo o caso, se permanecem em nós, ficam a maioria das vezes confinadas a um domínio desconhecido onde não nos servem para nada e onde, até, as mais usuais são recalcadas por recordações de ordem diferente e que excluem toda a simultaneidade com elas na consciência. Mas, se o quadro de sensações onde se conservaram for retomado, têm por sua vez aquele mesmo poder de expulsar tudo o que com elas for incompatível, de instalar em nós, sozinho, o eu que as viveu. Ora, como aquele que de súbito eu tornara a ser não existira desde aquela noite distante em que a minha avó me despira à chegada a Balbec, foi com toda a naturalidade, não a seguir ao dia actual que esse mesmo eu ignorava, mas - como se existissem no tempo séries diferentes e paralelas - sem solução de continuidade, imediatamente após a primeira noite de outrora, que aderi ao minuto em que a minha avó se inclinava para mim."
- Em Busca do Tempo Perdido, vol. 4 - Sodoma e Gomorra
Marcel Proust

domingo, 20 de abril de 2014

"Essa realidade não existe para nós enquanto não é recriada pelo nosso pensamento (se assim não fosse, os homens que estiveram envolvidos num combate gigantesco seriam todos poetas épicos); e assim, num desejo louco de me precipitar nos seus braços, só naquele momento, mais de um ano passado sobre o seu enterro, por força daquele anacronismo que tantas vezes impede que o calendário dos factos coincida com o dos sentimentos - só naquele momento acabava de saber que ela tinha morrido."
- Em Busca do Tempo Perdido vol. 4 - Sodoma e Gomorra
Marcel Proust

segunda-feira, 7 de abril de 2014

"Verificando depois que ninguém me podia ver, resolvi não me incomodar mais, com receio de perder, se o milagre acontecesse, a chegada quase impossível (através de tantos obstáculos de distância, de riscos contrários, de perigos) do insecto de tão longe enviado em embaixada à virgem que havia tanto tempo prolongava a sua espera. Eu sabia que tal espera não era mais passiva que na flor macho, cujos estames se haviam espontaneamente virado para que o insecto a pudesse receber com mais facilidades; do mesmo modo, a flor fêmea, aqui, se o insecto viesse, haveria de arquear galantemente os seus «estiletes» e, para melhor ser por ele penetrada, faria de modo imperceptível, como uma adolescente hipócrita mas em brasa, metade do caminho. As leis do mundo vegetal são, também elas, governadas por leis cada vez mais altas."
Em Busca do Tempo Perdido - Sodoma e Gomorra
Marcel Proust

domingo, 6 de abril de 2014

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Proust Report - p. 383 [a história das catleias nunca me enganou]

Passei o fim-de-semana com o Proust e chá. Todo um romance de Emily Brönte a acontecer lá fora e eu bem arrumada numa manta com o es-can-da-lo-so affair da Odette e do Swann. Ela nunca me enganou.
A páginas tantas, em vez de uma descrição dos ramos e das flores e das nuvens vou deparar-me com a descrição de todo aquele bacanal. Segundo volume?!

Entretanto, já fui buscar o À Sombra das Raparigas em Flor - lindo lindo título - e espero que amanhã comece então a segunda volta. O Swann não vai mesmo casar com ela pois não?! Vai começar a fazer catleias mas é com a princesa de Guermantes não é?!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Proust Report - p.179

Things are getting serious. 
Está tudo a morrer. Toda a gente morre. Estou a deprimir, porque de facto toda a gente morre e as pessoas que ficam são mesmo boas na filha da putice. As pessoas e a vida, que é trágica e acaba sempre mal.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Proust Report - pp. 49-50 [ou eu também já bebi muito chá e nunca se me deu disto]

"E de súbito a lembrança apareceu-me. Aquele gosto era o do pedaço de madalena que nos domingos de manhã em Combray (pois nos domingos eu não saía antes da hora da missa) minha tia Leónia me oferecia, depois de o ter mergulhado no seu chá da Índia ou de tília, quando ia cumprimentá-la no seu quarto. O simples facto de ver a madalena não me havia evocado coisa alguma antes de que a provasse; talvez porque, como depois tinha visto muitas, sem as comer, nas confeiteiras, a sua imagem deixara aqueles dias de Combray para se ligar a outros mais recentes; talvez porque, daquelas lembranças abandonadas por tanto tempo fora da memória, nada sobrevivia, tudo se desagregara; as formas - e também a daquela conchinha de pastelaria, tão generosamente sensual sob a sua plissagem severa e devota -, se haviam anulado ou então, adormecidas, tenham perdido a força de expansão que lhes permitiria alcançarem a consciência. Mas quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas - sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis -, o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação.
E mal reconheci o gosto do pedaço de madalena molhado em chá que a minha tia me dava (embora ainda não soubesse, e tivesse de deixar para muito mais tarde tal averiguação, por que motivo aquela lembrança me tornava tão feliz), eis que a velha casa cinzenta, de fachada para a rua, onde estava o meu quarto, veio aplicar-se, como um cenário de teatro, ao pequeno pavilhão que dava para o jardim e que fora construído para os meus pais aos fundos da mesma (esse truncado trecho da casa que era só o que eu recordava até então); e, com a casa, a cidade toda, desde a manhã até à noite, por qualquer tempo, a praça para onde me mandavam antes do almoço, as ruas por onde eu passava e as estradas que seguíamos quando fazia bom tempo. E, como nesse divertimento japonês de mergulhar a bacia de porcelana cheia de água pedacinhos de papel, até então indistintos e que, depois de molhados, se estiram, se delineiam, se enchem de cores, se diferenciam, tornam-se flores, casas, personagens, consistentes e reconhecíveis, assim agora todas as flores do nosso jardim e as do parque do Sr. Swann, e os nenúfares do Vivonne, e a boa gente da aldeia e suas pequenas moradias e a igreja e toda a Combray e seus arredores, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha chávena de chá."
- Em Busca do Tempo Perdido I, No Caminho de Swann
Marcel Proust

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Proust Report - p.48

Umas sete páginas a descrever aquele momento de intermitência entre a vigília e o sono, logo de início. Quem se queixa das 10 páginas queirosianas de descrição do sofá verde devia meter os olhos nisto. 

Esta é a minha expressão facial e interior no resto da leitura:


Às vezes é esta:

Mas normalmente é assim:


Estamos bem.

domingo, 12 de janeiro de 2014

2014

Dois mil e catorze.
Este foi o primeiro ano que pedi os 12 desejos à meia-noite da viragem de ano. É o ano dos 22 (tenho seis meses para aprender a coreografia) e já vi as previsões da Maria Helena para este ano e são bastante auspiciosas (esteanoép'raloucura)
É também o ano em que vou ler Proust. Sim. Vou estar o ano todo Em Busca do Tempo Perdido. 
E o ano de sistemas gravitacionais coloridos. 
E de uma odisseia com o Joyce.
E de piadas infinitas. 

Este ano ano vai ser dedicado àquilo que o Priberam apelida de "calhamaços". Doze mais concretamente; um por mês. O challenge já está lançado no Goodreads, e é provável que eu leia outras coisas que não estão n'A LISTA DOS DOZE, como estou agora a ler o Primo Levi, mas esse não contam, é só mesmo para manter a sanidade, tsá?

A LISTA:
1), 2), 3), 4), 5), 6) e 7) - os sete volumes do Em Busca do Tempo Perdido
8) Gravity's Rainbow, Thomas Pynchon
9) A Piada Infinita, David Foster Wallace
10) As Luzes de Leonor, Maria Teresa Horta
11) Ulysses, James Joyce
12) ... vamos manter este slot em aberto - estou tentada a meter aqui a biografia do Mao e é capaz de não dar bom resultado.

Janeiro vai já quase a meio, e eu ainda não comecei, mas! afinal os volumes do Proust nem são assim tão volumosos. Portanto, so far so good, certo?