terça-feira, 17 de janeiro de 2012

sozinho no róque

"noutro tempo, noutra configuração... eu dedicava-me ao róque, só tocava distorção. entretinha as raparigas com letras de pressão, uma cassete das antigas pelas garagens do Monte Abraão. partir a gosto, uma amiga que é um susto, não sentir nenhum desgosto, só libertação. ao pescoço o colarinho 'tá translúcido, é a camisa 90's que herdei do meu irmão. indirecta, para trabalhar a meta. mais a rimar, nem tanto a ser poeta. a dominar a música discreta que a garagem 'tá deserta e a puberdade é uma dieta, mas eu não paro de engordar."

Histórias de vizinhança, parte II

Os meus vizinhos da frente - sim, os mesmos que põem os miúdos a gritar às dez da manhã aos fins-de-semana no quarto que faz paredes meias com o meu - ainda não tiraram o enfeite de Natal da porta... Ora, é dia 17: já passados 11 dias do dia de Reis e uns 23 dias desde o Natal propriamente dito aquilo ainda está pendurado. Um bocadinho de mais, não?

Esta recente "espéciezinha" que estou a criar pelos meus vizinhos - muito prestáveis quando não sei muito bem como encravei a fechadura de casa com a chave lá dentro às 11 e tal da noite, estando nessa altura sozinha em casa - está a ser acalentada igualmente pelo "dom", o "génio", o "talento" que os putos têm para tocar flauta. Fui brindada por um pequeno "concerto" um dia destes de manhã cedo, quando estava a tentar dormir, acordada pela chinfrineira - perdão - pelas tonalidades sublimes daquele instrumento de sopro. É que eles nem estavam a fazer nenhuma nota! E eu sei, que eu tocava muito bem flauta de bisel na escola! Era mesmo aquele gritinho agudo que nos viaja pelas ondas sonoras e atravessa paredes até ao nosso quarto. A princípio ainda pensei que era o meu irmão, que se lhe tinha dado para aquilo àquela hora e ainda me levantei para lhe dar um berro, mas depois percebi que eram mesmo o raio dos putos do lado. 
Mas o que é isto? 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

"- Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o Padre Soeiro... Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua ideia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?... A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até aquela antiguidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos... Até agora aquele arranque para África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?
- Quem?
- Portugal."
~A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queiroz

Book Challenge 2012

Que coisa bonita: Janeiro tem sido um mês literáriamente produtivo. Já vou no terceiro livro deste mês, oh yeah batam palmas! Acho que esta produtividade se deve toda ao facto de eu não ter grande coisa para fazer e estar de... wait for it...waaaaait for it... FÉRIAS! aaaah sabe bem dizê-lo, mesmo que já a partir de amanhã me encontrarão encerrada nas catacumbas bibliotecárias a "estudar". 
Enfim! 

Desconfio que esta produtividade vai cessar assim que começarem as aulas, mas é sempre bom sonhar; portanto, e pensando bem isto constitui uma espécie de resolução de ano novo, comecei no goodreads um "Book Challenge": ler em 2012, 50 livros. Está ali ao lado uma aplicação para acompanhar os meus honrosos progressos e aquilo diz-me que estou a fazer um belíssimo trabalho. 
Oh yeah... 

domingo, 8 de janeiro de 2012

Oh!

As minhas manhãs de fim-de-semana eram tão mais felizes quando não tinha vizinhos do lado e o quarto dos miúdos não era mesmo, mesmo, mesmo colado ao meu e eles não fizessem uma chinfrineira desgraçada logo de manhã, como se acordar tão cedo fosse uma coisa bué divertida. 
É que já nem bons desenhos animados passam na televisão àquela hora para os putos se entreterem.

Natureza Morta


Fui esta manhã à exposição da Gulbenkian e, surpreendentemente, gostei bastante. Eu não sou muito dada a naturezas mortas, mas fui surpreendida por uma vivacidade de cores e significados ocultos em cada pincelada de maçãs, laranjas e limões. Eu tenho futuro a teorizar sobre isto.
Gostei muito deste Van Gogh: 


E das maçãs do Cezanne:
Que para mim é a representação do ciclo da vida, desde a maçã verde às maçãs já demasiado maduras. Achei bonito. E as cores, as pinceladas, a evocação deslumbrantes. 

Vale a pena a meia-hora de espera na fila e ainda vão a tempo: a exposição hoje só fecha às 11 da noite e a entrada é gratuita. Só é pena a agitação, inibidora de uma visita mais atenta e prolongada. Gosto da calma e do silêncio de museu. 

Ah! e vi o Mário Crespo no meio daquela azafáma. 
Foi uma manhã produtiva... 

Eduardo Viana - K4 Quadrado Azul

sábado, 7 de janeiro de 2012

Ainda não disse quais as minhas resoluções para este ano

Ontem à noite lembrei-me de uma ideia bestial para um post; hoje varreu-se completamente da ideia. Não me consigo lembrar nem por nada o que era. E olhem que era mesmo giro.

Ao invés dessa terrificamente brilhante ideia, assomada de madrugada e fugidia ao amanhecer (quase entardecer, vá, que eu gosto de prolongar as manhãs sonolentas até tarde), é altura de falar das novas resoluções para este ano de 2012, ainda não abordadas. Então, a saber:

Como não li Sartre o ano passado, pretendo colmatar essa grave falha de carácter este ano: se alguma alma caridosa quiser ofertar-me O existencialismo é um Humanismo (esta é uma tradução do Vergílio Ferreira, mas de certo há outras edições igualmente intelectualmente satisfatórias - mas esta é mesmo muito fofinha e eu gosto de Vergilio Ferreira) numa data próxima (tipo os meus anos daqui a 172 dias) terá a minha máxima gratidão.

Ao Sartre, juntaremos a alegre companhia de Camus com o Mito de Sísifo e O Estrangeiro

Findadas questões literárias, este ano pretendo:
1) Falar mais com as pessoas (diz que algumas até são interessantes) - desconfio que aqui vou falhar redondamente;
2) Começar a escrever mais, não só aqui no blog, mas histórias, contos, essas coisas que a minha escrita está perra;
3) Hmm... ir mais ao cinema (o ano passado foi pouco produtivo, uma pena);
4) Parar de ser parva e tão picuinhas com certas coisas;
5) Fazer da vida algo agradável. 

Acho que é só isto. E já é muito. 

A sério?

Mas isto da Maçonaria é surpresa para alguém? É de facto necessário fazer rodapés a dizer que há maçons espalhados pelos vários quadrantes da sociedade?
A sério?

"Olá, eu sou a Diana..."

"... e preguiça é o meu nome do meio."

Eu, Diana Catarina dos Santos Pilar (não é este o meu nome), me confesso: gostava que não fosse, mas é. 
E nem é tanto padecer desse mal denominado por preguiça, apercebo-me, mas sim cansaço. Sinto-me sempre irremediavelmente cansada (não, este post não vai acabar comigo a citar Álvaro de Campos/F. Pessoa), fazendo com que acordar a uma sexta-feira às seis da manhã, já estando de férias desde o dia 16 do passado mês do ano passado, para fazer uma frequência opcional cujo resultado poderia favorecer a nota final me parecesse uma terrível e horripilante ideia. 
Em vez disso, dormi até à uma da tarde (mais coisa menos coisa). Achei prolífico. 
Até porque ando a ter uns sonhos muito estranhos, dignos de buscas incessantes de interpretação online. Acho que sonhei, inclusive, que era uma personagem d'A Ilustre Casa de Ramires (ando a ler Eça), acordando repentinamente e aliviada por ter apagado a luz do candeeiro antes de adormecer. 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Ai!

O Blogger está hoje para me irritar.
E eu estou sem chocolates.

Parecem acontecimentos sem qualquer ligação intrínseca, mas estão na verdade profundamente relacionados.
A minha relação com os chocolates é muito profunda. Eu gosto deles e eles gostam de mim também, porque senão não eram tão bons para mim como são.
Estou a ressacar.

Olha, está tudo cor-de-rosa!

TAXARAAAAAAAN!

(isto é um blog de moça, tenham paciência comigo)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Um Dia o tanas

Vi antes de ontem o One Day com a Anne Hathaway e o Jim Sturgess.O trailer é enganador: ele só quer mesmo saber dela quando está em apuros, quando preciso de falar e percebe que ninguém à sua volta o compreende. Mas quando é ao contrário ele é um puto egoísta.
Não gostei do filme e senti uma certa raiva por eles. Um pouco mais pela personagem da Anne Hathaway, porque dele não se esperava outra coisa. O filme retrata os vinte anos da amizade entre eles e a eterna esperança que ele um dia perceba que o destino mesmo é ficar com ela e pronto, deixe de ser mulherengo e um bêbado. Ela deixou-o cometer todos os erros possíveis, deixou-o estar na dele, sabendo o fim inevitável.
A bom dizer, ele é um cretino e ela um parva. Vinte anos que ela esperou, adiando a sua felicidade amorosa, aturando um falhado, até que ele finalmente percebeu -  já ela recomposta e a viver a vida dela em Paris - que  eles afinal pertencem juntos. Uma treta.
Mas depois percebi porque me irritou tanto: eu percebo. Eu entendo o facto de ela ter esperado por ele, ah e tal o grande amor da vida dela. Continua a ser uma treta. E um erro. De facto, até parece fofinho nos filmes, mas é uma treta quando se trata da vida quotidiana.
Bah.

*Spoiler alert*: Ela no fim é atravessada de uma ponta à outra por um camião. Dos vinte anos de amizade, apenas ficaram casados uns três, mais ou coisa menos coisa. E foi isto: de repente, parecia que estava num filme do Nicholas Sparks (morre sempre um dos protagonistas no fim). Ah que temos de valorizar o bom que temos, acordar para a vida e perceber que o amor pode estar mesmo ali ao lado. Pois... 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012


"Será sempre impossível determinar com um mínimo de segurança em que medida é que as nossas relações com outrem resultam dos nossos sentimentos, do nosso amor, do nosso desamor, da nossa benevolência ou do nosso ódio, e em que medida é que estão previamente condicionadas pelas relações de forças existentes entre os indivíduos.
A verdadeira bondade do homem só pode manifestar-se em toda a sua pureza e em toda a sua liberdade com aqueles que não representam força nenhuma. O verdadeiro teste moral da humanidade (o teste mais radical, aquele que por se situar a um nível tão profundo nos escapa ao olhar) são as suas relações com quem se encontra à sua mercê: isto é, os animais. E foi aí que se deu o maior fracasso do homem, o desaire fundamental que está na origem de todos os outros."
- A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

No adeus a 2011

Diz que nesta altura se mergulha num transe retrospectivo destes últimos 365 dias, uma sede de escolher os melhores: os melhores álbuns de música, os melhores livros, os melhores filmes; os melhores momentos, enaltecer os mais felizes em detrimento dos piores, sempre optimista, copo sempre meio cheio, ah que foi um ano bestial, que venha outro igual. Não foi e não, não quero outro igual. Quero permanecer com o bom que tirei deste ano, que foi muito, mesmo muito especial, mas que 2011 fique onde está e 2012 não se arme em esperto comigo.
Mas o que aconteceu este ano já enviou ondas de repercussão para 2012 e, muito provavelmente se o mundo não acabar no próximo Dezembro, a repercussão dos acontecimentos não se ficará por 2012, mas 2013, 2014, talvez até toda a vida. Espero que os acontecimentos felizes deste ano se multipliquem por todos os anos vindouros, mas por favor que o novo ano seja simpático para mim; já nem digo bestial ou fofinho, mas pelo menos simpático. 
2011 foi paradoxalmente o melhor ano que vivi  e o pior ano de que tenho memória. "It was the best of times, it was the worst of times." como descreveria Dickens. Lançou-me num estado de perpétua Primavera, mostrou-me o que é o amor e paixão e o redemoinho de emoções que faz palpitar um coração. Fez-me feliz, mais feliz do que alguma vez imaginei poder (e merecer) ser, a prova que as mais belas histórias de amor nascem das amizades (pelo menos, inicialmente) insuspeitas. O amor faz-se com o tempo e conhecimento. 
Mas ao mesmo tempo o ano foi madrasto. Porque de facto, a morte é uma puta, mas a iminência da morte consegue ainda mais puta ser. E tudo o que daí advém não parece finito, mas desenvolve-se e paira sobre nós.
Foi toda uma vida a acontecer este ano. Foi a desilusão adivinhada logo de início, o choque, a tristeza. A falta de perspectiva de futuro e os pensamentos infortuitos sobre o nada. E o pior é terem sido coisas sobre as quais não tinha absolutamente controlo algum: apenas sobre a forma como lhes reagia. A vida a acontecer.

Espero sinceramente que 2012 nasça de um sonho bom, que pelo menos eu tenha melhor capacidade de reacção às bolas baixas que a vida me direccione. Tenha a saúde, a vitalidade e receba a alegria do sol.
É sempre uma questão de perspectiva sobre as coisas.
Saber (conseguir) não sucumbir para o fundo do poço, do qual tantas vezes perigosamente me aproximei este ano.

Levantar e seguir em frente. Olhar para o lado (e para cima) e sentir amor num beijo na testa, todos os dias que me restam.

Ah! as resoluções

Das minhas resoluções do ano passado, só me falta ler Sartre. 
Assustei pessoas com abraços, li o Anti-Cristo e a República. 
Tentei ser fixe para 2011, mas 2011 não foi muito fixe para mim. 
Mas de 2011 levo o melhor de tudo, de sempre: levo amor. Um amor. 

O Insustentável Peso de Babilónia*

*Literalmente, porque o livro era de facto muito pesado
Comecei (finalmente) A Insustentável Leveza do Ser do Milan Kundera e acabei (finalmente) o Ontem Não te Vi em Babilónia., do Lobo Antunes Não sei se foi de mim e da minha curta e reduzida capacidade de concentração, mas o livro maçou-me, não sei o que aconteceu. Muito extenso, muito longo e visto que a minha capacidade atentiva é diminuta, perdi-me uma data de vezes nas vozes das várias personagens. A escrita "lobo antunesiana" (acabei de inventar), pelo menos para mim, não se coaduna com obras muito extensas, lá para as 300 e tal páginas, o que é uma pena.
Foi um tanto ou quanto penoso, muito confuso e foram necessários vários exercícios de memória e adivinhação para perceber: 1) quem estava a falar, 2) de que raios estava a falar e 3) porque é que eu continuava a ler. Foi doloroso, sobretudo porque gosto demasiado de Lobo Antunes para continuar o martírio daquela maneira. Foi maçador. Mas enfim, não há nada a fazer. Vou procurar pelas wikipedias desta vida algum sentido à narrativa. 
Comecei então a ler (sabiamente e em boa hora) A Insustentável Leveza do Ser e até agora estou abismada. Era disto que precisa para "lavar" o Ontem Não te Vi em Babilónia. Entre a noite de ontem e o principio da tarde de hoje, li a colectânea da Dom Quixote dos Poemas de Amor do Pablo Neruda (uma oferenda natalícia do coração ♥) e depois "Kundera com ela" (wtf? nem eu sei o que aconteceu aqui, mas apeteceu-me escrever isto, achei bonito). Está a ser muito boa e parece-me que vai ser um livro do qual eu vou espalhar a palavra por aí e a converter os incrédulos. 
Vai ser o meu livro da viragem do ano, portanto preparem-se para muitos excertos vindouros em 2012.
Assim:

"O fardo mais pesado esmaga-nos, verga-nos, comprime-nos contra o solo. Mas, na poesia amorosa de todos os séculos, a mulher sempre desejou receber o fardo do corpo masculino. Portanto, o fardo mais pesado é também, ao mesmo tempo, a imagem do momento mais intenso de realização de uma vida. Quanto mais pesado for o fardo, mais próxima da terra se encontra a nossa vida e mais real e verdadeira é.
Em contrapartida, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, fá-lo voar, afastar-se da terra, do ser terrestre, torna-o semi-real e os seus movimentos tão livres quanto insignificantes.
O que escolher, então? O peso ou a leveza?"
E mais adiante.

"Não há forma nenhuma de se verificar qual das decisões é melhor porque não há comparação possível. Tudo se vive imediatamente pela primeira vez sem preparação. Como se um actor entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que vale a vida se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É o que faz com que a vida pareça sempre um esquisso. Mas nem mesmo «esquisso» é a palavra certa, porque um esquisso é sempre o esboço de alguma coisa, a preparação de um quadro, enquanto o esquisso que a nossa vida é, não é esquisso de nada, é um esboço sem quadro.
Tomas repete em silêncio o provérbio alemão, einmal ist keinmal, uma não conta, uma vez é nunca. Não poder viver senão uma vida é pura e simplesmente como não viver."

~A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera