"Caeiro, Campos, Reis, não são mais que sonhos diversos, maneiras diferentes de fingir que é possível descobrir um sentido para a nossa existência, saber quem somos, imaginar que conhecemos o caminho e adivinhamos o destino que a vida e a história nos fabricam. Ter sonhado esses sonhos não libertou Pessoa da sua solidão e da sua tristeza. Mas ajudou-nos a perceber que somos, como ele, puros mutantes, descolando para formas inéditas de vida, para viagens ainda sem itinerário. Com Caeiro fingimos que somos eternos, com Campos regressamos dos impossíveis sonhos imperiais para a aventura labiríntica do quotidiano moderno, com Reis encolhemos os ombros diante o Destino, compreendemos que o Fado não é uma canção triste mas a Tristeza feita verso e com a Mensagem sonhamos uma pátria de sonho para redimir a verdadeira."
- Fernando Pessoa, o Rei da Nossa Baviera, Eduardo Lourenço
Quando eu for grande também quero passar a vida a escrever coisas bonitas sobre Literatura; mas falta-me talento e engenho. Não sou o Eduardo Lourenço.
You do not do, you do not do
Any more, black shoe
In which I have lived like a foot
For thirty years, poor and white,
Barely daring to breathe or Achoo.
Daddy, I have had to kill you.
You died before I had time--
Marble-heavy, a bag full of God,
Ghastly statue with one gray toe
Big as a Frisco seal
And a head in the freakish Atlantic
Where it pours bean green over blue
In the waters off beautiful Nauset.
I used to pray to recover you.
Ach, du.
In the German tongue, in the Polish town
Scraped flat by the roller
Of wars, wars, wars.
But the name of the town is common.
My Polack friend
Says there are a dozen or two.
So I never could tell where you
Put your foot, your root,
I never could talk to you.
The tongue stuck in my jaw.
It stuck in a barb wire snare.
Ich, ich, ich, ich,
I could hardly speak.
I thought every German was you.
And the language obscene
An engine, an engine
Chuffing me off like a Jew.
A Jew to Dachau, Auschwitz, Belsen.
I began to talk like a Jew.
I think I may well be a Jew.
The snows of the Tyrol, the clear beer of Vienna
Are not very pure or true.
With my gipsy ancestress and my weird luck
And my Taroc pack and my Taroc pack
I may be a bit of a Jew.
I have always been scared of you,
With your Luftwaffe, your gobbledygoo.
And your neat mustache
And your Aryan eye, bright blue.
Panzer-man, panzer-man, O You--
Not God but a swastika
So black no sky could squeak through.
Every woman adores a Fascist,
The boot in the face, the brute
Brute heart of a brute like you.
You stand at the blackboard, daddy,
In the picture I have of you,
A cleft in your chin instead of your foot
But no less a devil for that, no not
Any less the black man who
Bit my pretty red heart in two.
I was ten when they buried you.
At twenty I tried to die
And get back, back, back to you.
I thought even the bones would do.
But they pulled me out of the sack,
And they stuck me together with glue.
And then I knew what to do.
I made a model of you,
A man in black with a Meinkampf look
And a love of the rack and the screw.
And I said I do, I do.
So daddy, I'm finally through.
The black telephone's off at the root,
The voices just can't worm through.
If I've killed one man, I've killed two--
The vampire who said he was you
And drank my blood for a year,
Seven years, if you want to know.
Daddy, you can lie back now.
There's a stake in your fat black heart
And the villagers never liked you.
They are dancing and stamping on you.
They always knew it was you.
Daddy, daddy, you bastard, I'm through.
Li hoje o meu primeiro livro de Eugénio de Andrade e entrou directamente para o panteão dos meus poetas preferidos, taco a taco com Neruda e David Mourão Ferreira (e Sophia, vá).
O que há em mim é sobretudo cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...
SCORE! E já lá vão 3, thank you very much. Mas desta vez tão doce como amargo, e melancólico... É o último cheque da Fnac que a minha extraordinária capacidade cognitiva e o meu extraordinário mérito académico me proporcionam. E ao ouvir o Francisco Simões a declamar um verso do David Mourão Ferreira decidi que o vale estará destinado à antologia poética que dele há na Fnac. Parece-me justo. E eu gosto. Muito. E este foi o último, porque aparentemente acabei também o ensino secundário. Acho que houve algum erro, porque eu ainda me sinto como se estivesse para aí no 11º, vá... Mas não. Já não me querem lá mais. "Só para visitas!" - dizem eles... Eu por aí me fico. Se pudesse ia lá todas as semanas e sentava-me numa sala só para sentir outra vez o que é estar naquelas cadeiras. (As cadeiras!! E as mesas!! Alguém que pense nas mesas e cadeiras!!) Vou sentir a falta disso tudo. E dos hábitos, felizes e estáveis, que irão ser irremediavelmente diferentes já para o mês que vem. Vai ser muito giro, que vai, e eu vou gostar imenso da faculdade, que vou... mas era para ali que eu ia todos os dias e tinha a minha vida organizada. Agora não sei de nada.
Diz que a partir de hoje os resultados vão andar por aí e que uma hora destas eu vou abrir o e-mail e saber a resposta à pergunta que mais me atormentou estas últimas semanas: "que raios vou eu andar a estudar para o ano". A resposta está para breve e eu ainda não estou preparada para o pior. Tenho de tratar disso.
Também não quero abrir o mail sozinha, porque tenho medo da resposta: se for má não faço ideia do que me poderá acontecer; se for boa vou precisar de alguém ao meu lado para me beliscar...
Porque eu estive a minha vida toda à espera desta momento e ele está aí, aqui, ali na caixa de correio...
Seja o que Deus, e os senhores da direcção do ensino superior, quiserem, e eles deve querer que seja uma coisa boa, porque eu mereço um futuro decente afinal de contas.
"Narrator: There he lies. God rest his soul, and his rudeness. A devouring public can now share the remains of his sickness, and his phone numbers. There he lay: poet, prophet, outlaw, fake, star of electricity. Nailed by a peeping tom, who would soon discover...
Jude: A poem is like a naked person...
Narrator: - even the ghost was more than one person.
Arthur: ...but a song is something that walks by itself."