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sábado, 17 de março de 2012

O amor é sobretudo isto

É este percorrer as sucessivas idades da vida de mão dada.


"Querida. Se tu viesses. Gostava tanto de te ver. Em qualquer idade da vida, que em todas estarias certa com a minha necessidade de te amar. Na idade jovem do teu cabelo à garçonne, na tua idade azougada em que eras mais energética do que a vida, mulher eléctrica, quando eu ficava estoirado só te ver. Ou mais tarde, à hora desta deusa da Primavera que tenho aqui. Ou mesmo já no fim, quando te levava pela mão, já trôpega, atrapalhada com todas as peças de seres, e íamos almoçar ao restaurante em frente de casa. Se viesses. E todavia. Se viesses, talvez te não pudesse dizer já o que te digo, porque para as palavras difíceis uma presença é inoportuna."
Em Nome da Terra, Vergílio Ferreira 

segunda-feira, 5 de março de 2012

Há Palavras que Nos Beijam

Há palavras que nos beijam 
Como se tivessem boca. 
Palavras de amor, de esperança, 
De imenso amor, de esperança louca. 

Palavras nuas que beijas 
Quando a noite perde o rosto; 
Palavras que se recusam 
Aos muros do teu desgosto. 

De repente coloridas 
Entre palavras sem cor, 
Esperadas inesperadas 
Como a poesia ou o amor. 

(O nome de quem se ama 
Letra a letra revelado 
No mármore distraído 
No papel abandonado) 

Palavras que nos transportam 
Aonde a noite é mais forte, 
Ao silêncio dos amantes 
Abraçados contra a morte. 

Alexandre O'Neill

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O momento sebastianista de Diana Catarina

Era uma manhã encoberta. 
Enfrentava os suaves cristais de chuva sustentados no ar à sua volta e envolta por essas gotículas húmidas fustigando-a, atravessava o descampado. A viagem de todos os dias pintada de cinzento, o céu num tom quase branco quase iluminado pelos raios de sol triunfantes na conquista à barreira de uma intenção cristalina.
"Raios, está frio!" pensava.
Sim, o frio. Esse príncipe de Inverno atravessava-lhe o casaco tal espada de samurai. 
O rio, contrariamente à habitual alegria com que salpica a margem da capital - brilhante, exuberante e vivido - e reflecte a luz do sol confuso (mas acolhedor) com a mania que é veraneante, é um grande manto encoberto pelo transparente elemento fugidio. Pessoas a bordo de uma casca de noz, quando em comparação à vastidão do plano maior do universo, vêem o invisível instrumentalizando a sua relembrança de dias passados, esperançados na âncora da rotina quotidiana que serena este medo do invisível. 
Diferentes cabeças, pensamentos diferentes; uma confusão desintegrada de balões de diálogo: "Será que estamos a navegar? O barco parece tão tranquilo", "Queres ver que é desta...", "Eu fechei a porta ao trinco, não fechei?"... Palavras soltas ao ar. À foz. Ao mar.
E quando toda a esperança parece inconsequente, eis que o cais se avista! Eis que da bruma surge o cenário perfilado na expectativa de todo o mundo! A segurança regressa, o sossego suburbano retorna ao ser e eis que tudo está como sempre esteve, apenas tudo foi ocultado por dez minutos pela privação das capacidades sensoriais, tendo o ser sido desequilibradamente privado do sentido de orientação tão necessário à sobrevivência e perpetuação da existência. 
Tudo assume o seu lugar habitual; a normalidade assenta a poeira do inesperado ataque ao equilíbrio e ordenação natural da vida. 
O universo pessoal realinha-se, o dia avança e a existência prossegue.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Folha em branco

Gostava imenso de conseguir escrever algo com mais de dois parágrafos. A escrita é catarse, mas está a tornar-se cada vez mais difícil encher de palavras uma folha em branco; o cursor pisca, marca o tempo, nada. Não sai nada. os pensamentos surgem esquizofrénicos impossíveis de organizar num discurso coerente, alinhado e justificado. É algo de dentro, não ultrapassa os limites da pele, não consegue e assim sendo a exteriorização não acontece e a folha continua em branco. 
Estou a perder as palavras. 
A perder o ritmo.
A folha em branco é silêncio. 

sábado, 11 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A arte de presentear

Eu gosto de dar presentes. Gosto de oferecer pequenas coisas, mas cheias de sentimento e simbolismo, gosto de oferecer, sobretudo, palavras. Pelo Natal, ia tudo corrido a poemas e estava feito. 
Dito isto, sou péssima a comprar prendas de aniversário, Natal, dia dos amigos e da criança, seja qual for a ocasião propícia à troca de oferendas. Horrível, mesmo. 
Não é propriamente o eu não saber o que os meus ricos amigos gostam e quais as suas preferências, mas eu gosto de ao mesmo tempo sentir-me bem com aquilo que dou. Achar fofinho e querido. E depois acho que também tenho gente um tanto ou quanto esquisita no que respeita a prendas.
Pelo contrário, eu sou das pessoas mais fáceis de presentear de sempre. E não digo isto apenas porque só faltam 97 dias para o Natal e o meu Chanel Chance está no fim. Nada disso. Mas a verdade é que não preciso de laçarotes e embrulhos de cinco palmos (se bem que eu aprecio deveras o acto de desembrulhar) desde que a oferta tenha um qualquer tipo de simbolismo e significância. Gosto de palavras também. Tenho gostos muito bons e diversificados, abrangentes aos vários tipos de arte. 

terça-feira, 26 de abril de 2011

Namora uma rapariga que lê

"Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro dela em livros, em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.

Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler dentro da mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas.

Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira por cima, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.

Oferece-lhe outra chávena de café com leite.

Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entende que, se ela disser ter percebido oUlisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.

Ela tem de arriscar, de alguma maneira.

Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. Nunca será o fim do mundo.

Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.

Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na saga Crepúsculo.

Se encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.

Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.

Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.

Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.

Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve."

«(Texto de Rosemary Urquico. Tradução “informal” de Carla Maia de Almeida para celebrar o Dia Mundial do Livro, 23 de Abril.)» 
Retirado daqui, sublinhados meus. 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

2010 em Tópicos

  • fiz-me à vida;
  • acho que disse as palavras mais bonitas que alguma vez disse a alguém e não me arrependi;
  • acho que também ouvi das palavras mais bonitas que alguma vez alguém me disse;
  • sorri muito;
  • ri muito, assim mesmo às gargalhadas;
  • ouvi o "não" mais doloroso da minha vida;
  • descobri uma nova forma de ter o coração esfrangalhado;
  • senti toda a tristeza que um coração esfrangalhado provoca;
  • sobrevivi a um coração esfrangalhado (palmas para mim);
  • usei e abusei do ombro do André;
  • usei e abusei da boa vontade do André, meu toblerone de chocolate e mel;
  • descobri em pessoas que sempre estiveram lá amizades fortes e inesperadas;
  • Porto;
  • acabei o secundário com uma média mais ou menos decente;
  • consegui arranjar maneira de ir para a rua pela primeira vez em 12 anos a meros 4 meses de acabar o secundário;
  • Alive!'10;
  • entrei para o curso que queria na faculade que queria;
  • fui praxada e gostei;
  • amigos foram e amigos regressaram para não sair mais;
  • amigos fiz;
  • continuo pessimista mas lá no fundo agora sei que se eu quiser vai tudo correr bem;
  • aprendi a relativizar;
  • sobrevivi a HTEP (!);
  • arranjei maneira de ter uma nota decente na primeira frequência de HTEP mesmo tendo um concerto na véspera;
  • pensei em dedicar-me à medicidade;
  • TheWalkmen e a epicidade do Lisbon em Lisboa;
  • cresci;
  • recebi mensagens que me fizeram sorrir;
  • recebi mensagens inesperadas;
  • despedi-me de 6 anos da mesma rotina diária para começar uma nova;
  • disse adeus ao sítio onde fui tão feliz;
  • cortei o cabelo mais curto;
  • Alentejo;
  • muitas viagens entre Lisboa e Castelo Branco;
  • dancei tanto sob a influência como sóbria;
  • descobri os encantos do gin tónico (bom bom bom);
  • descobri os encantos da sangria;
  • atingi a maioridade;
  • recensei-me;
  • participei em workshops de escrita criativa com escritores um tanto ou quanto "únicos";
  • até que escrevi textos bonitos;
  • escrevi textos lamechas ("mas oh Manel estamos na cozinha e a aparelhagem está na sala, como é que tu queres dançar?!");
  • conheci o António Lobo Antunes e disse-lhe o quão importante ele era para mim;
  • apertei a mão ao António Lobo Antunes;
  • li livros extraordinários;
  • comecei a ler livros integralmente em inglês;
  • comecei a levantar-me às 6 da manhã para atravessar o rio e ter aulas às 8;
  • aprendi muito sobre as continuidades e rupturas da configuração da Administração Central e Periférica;
  • cheguei a pensar que Economia nem é assim tão má;
  • revoltei-me;
  • vi bons filmes (Where the Wild Things Are ♥);
  • chorei com bons filmes (Where the Wild Things Are ♥);
  • Verão em Albufeira;
  • panquecas para o pequeno-almoço de regresso;
  • American Diner;
  • praia e piscina;
  • chorei no último episódio do Tonight Show with Conan O'Brien;
  • e sim, passei a odiar mesmo o Jay Leno;
  • dei pulos de alegria quando soube que o Conan ia voltar;
  • não gostei quando o Saramago morreu;
  • não gostei que o Cavaco tenha ficado nos Açores em vez de ter posto os pés nas cerimonias funebres do Saramago;
  • nunca trabalhei tanto como neste ultimos 3 meses;
  • nunca estudei tanto como nestes ultimos 3 meses;
  • arranjei maneira de ter uma nota decente no exame de História;
  • revoltei-me com a correcção do meu exame de Português (correctores agarrados de primeira);
  • fiz parte do Conselho Pedagógico da minha escola, porque aparentemente eu sou bué responsável;
  • Parlamento dos Jovens;
  • fiz campanha com um megafone nas mãos a tocar o We Will Rock You;
  • mesmo com os rebuçados (bons, que eram flocos de neve) perdi as eleições;
  • tive um encontro com um senhor muito estranho num café no Montijo aquando a sessão distrital do Parlamento dos Jovens (o senhor não gostou dos meus collants verdes: true story);
  • conheci deputados (comunistas, mas mesmo assim...);
  • trabalhei num jornal de parede e odiei;
  • descobri que não nasci para ser jornalista (eu já sabia, mas assim tive a certeza);
  • chorei (muito) com o video que nós fizemos para o jantar na fragata;
  • passei a ter medo de mulheres com cabelos brancos (podem ser a stora de AP a pedir para tratarmos do editorial);
  • aprendi que dizer o que penso não é mau;
  • aprendi que dizer o que sinto é saudavel e não tem consequências tão nefastas como eu esperava;
  • aprendi que fazer o que quero e realmente me apetece é muito bom;
  • aprendi que viver com medo de dizer e fazer o que me está no coração não é viver;
  • mas acima de tudo, consegui cumprir a resolução de ano novo e fazer de 2010 um ano do caraças.
E olhando para isto tudo, 2010 foi um bom ano. Muito bom. Mesmo que o meu coração tenha sofrido tanto e tão profundamente tal como nunca havia antes.
2010 foi um ano em que cresci muito e crescer quase nunca é sinónimo de felicidade. Mas apesar de tudo isto, levo deste ano um coração cheio de alegrias, já bem recomposto e num lugar melhor que há um ano atrás.
Portanto meus amigos, façam da vossa vida aquilo que querem que ela seja, porque somos os únicos capazes de fazer de cada dia o melhor de sempre. Que a passagem de 2010 para 2011 traga um novo folêgo e uma nova energia para fazerem tudo aquilo que sonham.
Este vai ser O ano, sim?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O mais dificil é começar

A parte mais dificíl de escrever um texto, qualquer texto, é começar. Saber o que dizer nas primeiras linhas, quais vão ser as primeiras palavras, como começar...
Eu neste momento devia estar a escrever a primeira das recensões de HRIP que, aliás, já devia estar feita há que tempos. Mas adiei. E agora que tenho mesmo de a fazer, porque o prazo de entrega está próximo e ainda tenho de fazer a segunda recensão e tenho de estudar e fazer outros trabalhos. Portanto, era mesmo muito fixe que eu a conseguisse fazer hoje ou pelo menos começa-la. Mas não sei como. Por isso desmotivei e agora não me apetece nada fazer coisa alguma.
Mas o início é o mais complicado, depois as palavras começam a fluir. Até ao momento em que param outra vez e depois são mais duas horas até que consigo recomeçar o texto. E isto é veridico, já cronometrei e tudo. Desde que comecei a ter de escrever para a escola, fazer trabalhos, textos, que demoro imenso tempo a concluir o texto mais simples. É algo crónico, parece-me, há doze anos que é assim.
E tenho agora a recensão para fazer e não me apetece nada: desmotivei porque não sei como começar e o começo é o mais importante, é o que vai determinar como o resto do texto vai correr. São aquelas palavras iniciais que decidem tudo. É a primeira impressão. E as primeiras impressões são tudo.
Também acontece lembrar-me de frases incriveis e ter ideias extraordinárias para os textos sempre nas alturas mais inoportunas: no banho, por exemplo, acontece muito, à hora do jantar, na cama a tentar adormecer. É terrivel.
Eu devia, portanto, estar a escrever uma recensão critica sobre um capitulo de um livro sobre a entrada de Portugal na I Guerra Mundial, e o excerto é bom, fui eu que o escolhi, mas não consigo, porque não sei como começar. Pelo autor? Pelo contexto histórico? Da guerra ou de Portugal? Se calhar começo como o Cobain naquela música: I'll start this off without any words... Faço um momento de silêncio pelas vitimas da grande guerra. Ou então deixo isto de lado e vou ler, vou ler a Emma que agora começou a fazer o retrato da Harriet. Ou então vou ver o CSI. Ou então fico aqui no escuro a ouvir o Johnny Cash, que me apetece. Ou então continuo com a página do Word à frente, a sentir-me culpada por ter de estar a preencher a página em branco com caracteres e ela permanecer inalterada.
De qualquer das formas, vou continuar com frio, porque o meu quarto agora tem a mania que é dos pólos e eu uma foca que aguenta as temperaturas negativas.
É que tem estado frescote, não tem? Pois...

domingo, 24 de outubro de 2010

Querido José Rodrigues dos Santos

Isto assim não pode ser. Quer dizer, vai uma pessoa de propósito a Lisboa para ver a apresentação do teu novo livro e descobre que afinal foi ontem. Eu sei, eu sei, que se calhar estás ainda muito zangado comigo pelas duras e críticas palavras que usei para definir o A Vida num Sopro. A parte em que disse que não sabias escrever e que era tudo muito básico e cheio de cliches de amor, e a minha parte preferida: "senti a cada página a rudeza dos lugares-comuns, dos clichés da vida e da História". - espera ainda há mais... "Toda esta previsibilidade, a pobre forma como tudo isto nos é dito constituem uma bruta decepção" .
Pronto, eu sei que fui muito má para ti. E se calhar os teus outros romances são do mais espectacular que há. E o teu génio literário é brutal. Mas repara: eu não tenho culpa de não ter sentido a magia da tua escrita. Estou até a pensar dar-te outra oportunidade no Verão que vem. Talvez que ainda requisite um livro teu ali na biblioteca...
Contudo, se continuares a fazer coisas assim comigo, eu desisto. Eu estou aberta a dar-te outra oportunidade, mas se continuares assim, meu querido, mão há volta a dar.
É que vai uma pessoa a Lisboa de propósito para te ver e, vá de aproveitar e açambarcar o cocktail, e não é que tu afinal estiveste lá, mas ontem? 
Zezinho, Zezinho isto assim não pode ser. Eu começo a pensar que estás a fugir de mim. É que nem na faculdade ainda te vi.
Meu querido, Rodrigues dos Santos: vamos dar mais uma oportunidade à nossa relação, sim? Mas tens de perceber que não posso ser só eu a lutar por ela. Eu não quero perder o teu piscar de olho no final do Telejornal. Sabes que já faz parte de mim e como ele me aquece o coração: é o meu calor da lareira numa noite fria de Dezembro. Mas tu tens de me devolver este meu empenho.

Portanto, Zezinho: da próxima vez, vais lá mesmo estar às 5 da tarde no raio da Sociedade de Geografia de Lisboa para eu bater palmas quando falares, está bem? Pronto, ficamos assim...

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

"Words are futile devices"


it's been a long long time since i've memorized your face
it's been four hours now since i've wandered through your place
and when i sleep on your couch i feel very safe
and when you bring the blankets i cover up my face

i do
love you
i do
love you

and when you play guitar i listen to the strings buzz
the metal vibrates underneath your fingers
and when you crochet i feel mesmerized and proud
and i would say i love you but saying out loud is hard
so i won't say it at all
and i won't stay very long
but you are the life i needed all along
i think of you as my brother
although that sounds dumb
words are futile devices

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Momento (Pseudo)Intelectual

Estão com vontade de fazer listas?
Estão pois!
E com vontade de fazer listas com livros?
Ora não querem vocês outra coisa!
E vontade de participarem num momento super intelectual, daqueles que uma pessoa olha e diz logo "oh que isto é tão superior intelectualmente que eu não posso morrer sem participar nisto primeiro"?
Aaah pois que não podem morrer, não.
Então vamos a isto.

Apetece-me ter aqui um momento intelectual e começar a activar as sinapses que durante as férias (todas elas) gostam muito de hibernar. E pensei em fazer a lista com os 5 livros mais importantes para mim (até ver). E então comecei a pensar em tudo aquilo que já li... E cheguei a esta conclusão:

(do fim para o início)

5 - Cem Sonetos de Amor do Pablo Neruda - ora, porquê? Porque os li numa altura em que me calhavam bem. Porque aqueles cem podia ter sido escritos por mim se eu fosse como o Pablo Neruda. E o senhor escreve bem sobre o amor, da maneira que eu gosto. Tenho ainda os Versos do Capitão à minha espera...  

4 - O Primo Basílio do Eça de Queiroz - porque primeiro, o Eça rulla à força toda; segundo, a história é melhor que Os Maias; terceiro, foi o primeiro livro à séria que li na vida e o único que reli, à conta de Literatura (e lá está, alguém dúvida que em Literatura se lêem melhores autores e obras que em Português? Pois, então são tontos)

3 - Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar? de.. adivinhem lá... tão espertos que vocês são... António Lobo Antunes - porque foi com este romance que a minha adoração/veneração/obsessão se consagrou; foi uma espécie de epifania para mim, em que me apercebi como, meu Deus, a língua portuguesa é bonita quando usada como deve ser e sem soar a pretensioso; Lobo Antunes conta a história da vida destas pessoas através das suas emoções e sentimentos, tudo como se um intrincado mapa do coração. O livro é brutal.

2 - Memória de Elefante de António Lobo Antunes - porque eu afinal também sou um médico psiquiatra chegado da guerra em África, que perdeu o amor da sua vida, e não consegue exprimir o que sente e o quanto ama a mulher e lhe sente a falta, que não percebe a mania das pessoas de porem crochet nas palavras como as flores de plástico ao pé das campas dos mortos que não servem para nada; este livro tem alguns dos excertos mais bonito que já li, tudo aquilo que queria dizer mas também não consegui.

(e o derradeiro primeiro lugar... rufar dos tambores por favor)

1 - Pela Estrada Fora do Jack Kerouac - este é O livro para se ler aos 16 anos, e depois aos 30 e aos 40... porque eu quero ser o Sal Paradise e percorrer os EUA de costa a costa, ou então a Europa; porque me fez querer correr meio mundo e ter planos para correr a outra metade; porque é um grito de liberdade; porque é um retrato inconformista de uma América conservadora dos anos 50 escrito maravilhosamente bem; porque é também uma história de amizades e de pessoas e de sentimentos e de relações com a América dos anos 50 como pano de fundo; porque me fez olhar para o mundo e para as pessoas de outra maneira e me fez feliz; ah, e porque é um livro do caraças...


E agora uma lista com os vossos 5... não vá... 3 livros preferidos, está bem? Ai que momento (pseudo)intelectual tão agradável...

quarta-feira, 30 de junho de 2010

E depois é isto.

Esta dualidade de sentimentos. Este bem querer de não querer. Este não saber: nada. Se ainda estás aqui, se continuas em mim. Se te desvaneceste, se o tempo te levou.
Porque ainda sinto a tua ausência.  
Porque ainda sinto o coração a correr a maratona, sobrepondo-se a tudo o que me rodeia, por um vislumbre teu.
Mas irremediavelmente desapontada, irremediavelmente perdida. Sem saber o que fazer contigo.
E doi. Terrivelmente. A cada pulsar de coração. A cada suspiro sofrido.
Porque agora já não tenho com que me ocupar, já não tenho sítios onde tenho de estar, pessoas com quem preciso de falar, mas tenho lugares vazios outrora ocupados, músicas sentidas que agora não fazem sentido, palavras ditas e ouvidas, perdidas. E o recordar. Momentos, palavras, gestos.
E continuo sem saber o que sentir. Sem saber o que é suposto sentir. Sem saber o que é isto que na verdade sinto. A definição foge-me pelos dedos.

Sei que é um fim, mas às vezes ainda preciso de ti.

Uma Tomada de Posição

Pois que isto de se ter dezoito é mais do já poder votar. A participação cívica é mais que isso. Existem várias formas de participar activamente na sociedade civil e política e tomar uma posição sobre aquilo com que não concordamos.
Como o Acordo Ortográfico.

Está a circular por aí não uma outra petição, mas uma Iniciativa de Legislação de Cidadãos - outro direito que nos assiste enquanto cidadãos de um Estado de Direito democrático: o poder apresentar iniciativas legislativas - contra o novo Acordo Ortográfico.
É simples: basta lerem o documento, imprimir a folha de assinatura, preencher, digitaliza-la para enviar por e-mail ou enviar pelo correio tradicional.

Aqui, o site da Iniciativa.

Aqui têm o documento legislativo.

Aqui, as explicações necessárias.


Assinem, passem e re-passem.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago (1922-2010)

Sempre tive uma relação conflituosa com Saramago. Nunca concordei com muitas das suas afirmações, mas não há como negar o génio das suas palavras.
O único livro de teatro de que realmente gostei é dele: Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido. Mas foi O Ensaio Sobre a Cegueira que me fez gostar da sua escrita e continua ser um dos meus livros preferidos dele.

Agora, é tempo de invocar a memória do seu legado literário e recorda-lo, para sempre, como uns dos maiores escritores da Língua Portuguesa. A figura pode ter desaparecido, mas a obra nunca morre: é eterna.
Aqui fica a minha homenagem.

"Agora não há outra música senão a das palavras, e essas, sobretudo as que estão nos livros, são discretas, ainda que a curiosidade trouxesse a escutar à porta alguém do prédio, não ouviria mais do que um murmúrio solitário, este longo fio de som que poderá infinitamente prolongar-se, porque os livros do mundo, todos juntos, são como dizem que é o universo, infinitos."

in Ensaio sobre a Cegueira
-José Saramago

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Preciso de alguém que me cante isto.

Ao ouvido. Num murmúrio. Preciso de ouvir estas palavras de alguém que não seja a minha própria voz dentro de mim. Preciso de saber. De validar aquilo que já sei, mas precisa confirmação. Preciso de ouvir que vai ficar tudo bem, pelo que foi  e pelo que está para ser.
Preciso que venhas sem te chamar, abras a porta e me envolvas nos teus braços. Preciso que me afagues o cabelo e digas que já passou. Que me beijes a testa e, num sorriso, prometas que vai ficar tudo bem. 
Então, preciso de alguém que me cante isto...
Porque eu sei que sim, mas preciso de ouvi-lo de ti. 




I believe in you and me
I'm coming to find you
If it takes me all night
Wrong until you make it right
And I won't forget you
At least I'll try
And run, and run tonight
Everything will be alright
Everything will be alright
Everything will be alright
Everything will be alright

I wasn't shopping for a doll
To say the least, I thought I've seen them all
But then you took me by surprise
I'm dreaming 'bout those dreamy eyes
I never knew, I never knew
So take your suitcase, cause I don't mind
And baby doll, I meant it every time
You don't need to compromise
I'm dreaming 'bout those dreamy eyes
I never knew, I never knew
But it's alright...

Everything will be alright
Everything will be alright
Everything will be alright
Everything will be alright

segunda-feira, 7 de junho de 2010

The End's Not Near. It's Here...

Há seis anos, eu entrei por aqueles portões com uma e só ideia na cabeça: não me apegar. Que disparate seria agora criar afectos, para que tudo, de um momento para o outro, possa desaparecer. Eu que já tinha feito um belíssimo trabalho nesse sentido em tempos passados.
Mas desta vez eu - tonta e desprovida de qualquer esperteza - fiz tudo ao contrário: afeiçoei-me. Afeiçoei-me às cadeiras, às mesas, às paredes, ao chão, aos quadros, à minha janela - a terceira a contar da frente -, às flores, às árvores, aos bancos, aos toldos mesmo esburacados, aos muros, ao portão. E às pessoas. Principalmente às pessoas e à mesma rotina.

Dentro daquelas salas, sentada naquelas cadeiras, com os livros dispostos naquelas mesas, a olhar por aquela janela toquei, senti, ri, estupidifiquei, chorei, zanguei-me, percebi, ultrajei-me, distraí-me, sonhei, aprendi, cresci. Fui feliz. Tornei-me quem sou hoje. Porque todo um conjunto de acasos felizes me fez sentar na mesma sala com todos aqueles que hoje fazem parte do meu universo e que me fazem feliz. Dentro daqueles muros, conheci as pessoas mais importantes da minha vida. As suas memórias trago já intrínsecamente comigo, como as folhas dentro de mim do poema do Neruda. A diferença é que já sei há muito tempo que as trago comigo, grata por todos os momentos que passamos juntos nestes últimos anos. Bons e maus. Parvos e estupidamene inteligentes. Hoje sou quem sou, feliz e consciente, porque todos vós me ajudaram a crescer. E por isso, agradeço-vos. 

Amanhã é a última vez que vou descer aquela rua, na mesma rotina de há seis anos. Amanhã deixo para trás uma parte de mim e preparo-me para enfrentar outra. Deixo-a com saudades, mas sem olhar para trás: tenho o resto da minha vida à minha espera.

domingo, 16 de maio de 2010

O António Lobo Antunes mostrou-me o que é, de facto, Literatura e mudou a forma como eu a encaro; ensinou-me a ler de verdade a palavra portuguesa, ensinou-me o seu valor, o quanto ela pode significar e o quão bonita ela pode ser e o é, quando usada despretensiosamente na busca de contar a história dos nossos sentimentos.
E eu tentei dizer-lhe isso mesmo. De voz trémula e de coração a saltar agradeci-lhe por me ter mostrado o que era a Literatura e ensinado a ler a Língua Portuguesa.
Ele ouviu e no fim, de sorriso tímido, agradeceu-me. E ofereceu-me um livro. O Segredo de Joe Gould de Joseph Mitchell com prefácio seu. 
De coração cheio lá me despedi e apertei-lhe a mão. E com isto já tenho razões para ficar feliz durante as próximas semanas.


segunda-feira, 10 de maio de 2010

A palavra do fim-de-semana

REBUÇADO

De morango ou café. E eu gosto.


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E o que melhor demonstrará amor e amizade fraterna do que uma irmã sportinguista ensinar o irmão benfiquista a clamar pelo seu clube?

quarta-feira, 31 de março de 2010

I'm Getting Good At This

O pior de sonhar é acordar na manhã seguinte e perceber que foi tudo um sonho: nenhuma das palavras que disse, nenhuma das palavras que ouvi foram realmente ditas, perceber que nada mudou e tudo não passou de uma produção do meu inconsciente.
E o pior de tudo é lembrar-me dele, do sonho e de tudo aquilo que podia ser mas não o é - por imposições do destino, por teimosia terrestre ou pelos desencontros da vida.
Mas assim se vai vivendo... Pior seria se não conseguisse sonhar de todo.


"não queiras saber o que eu já pensei de ti
na negação da tua ausência fui esgotando a minha lista
e o que eu ganhei
tanto quanto eu sei
são noções pra viver sem ti"